quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A rua do Oratório fica sempre muito agitada à noite. Os alunos saem da UFABC e vãos pros bares ao redor. Mas hoje é diferente. Todos estão com uma agitação pressurosa: precisamos ir para nossas casas, pegar nossos pertences mais importantes e voltar para a nau.

"O que vocês estão fazendo parados aí?", perguntei a alguns amigos que estavam dentro de um carro estacionado. "Não vai dar tempo, a gente mora longe." Quase gritando, respondi: "venham comigo e a gente pega mantimentos na minha casa!"

Nunca corri tanto na avenida dos Estados. Passando por semáforos vermelhos, andando a mais de 90 km/h. Passava por outras ruas quando encontrava um congestionamento. 

Chegando a minha casa, corri para o quarto, coloquei o máximo de roupas que pude em malas, mochilas e sacolas. Falei para meus amigos sem rosto pegarem o máximo de alimentos que pudessem na cozinha enquanto eu pegava os animais. Foi a primeira vez em meses que o Juca entrou na gaiola, e não gostou nem um pouco. Os hamsters vão junto com ele. Vou ter que arrumar uma gaiola para transporte de cachorros, o Max pode se perder ou se machucar se for solto. Olhei para os aquários: sinto muito, vocês vão se perder no dilúvio. Não posso manter animais aquáticos na nau porque toda a água potável vai precisar ser economizada para ser bebida. Colocamos tudo no porta-malas do carro. Eu precisava correr muito, levar todos de volta ao local de embarque, comprar uma gaiola para o Max e buscá-lo em casa. 

"Nós vamos com você, vamos te ajudar", disseram meus amigos desconhecidos. Na procura por um lugar onde pudéssemos conseguir a tal gaiola, passei por um semáforo vermelho e bati sem querer o retrovisor do carro numa pessoa. "Ela vai entender", pensei, me desculpando mentalmente, enquanto um carro de polícia me dava sinal para parar. "É inacreditável: o mundo acabando e a polícia querendo me encher o saco", pensei enquanto íamos para a delegacia. Pronto, agora querem que paguemos uma quantia abusiva de dinheiro para eu não ser presa por ter batido um retrovisor nas costelas de um pedestre. "É, literalmente, o fim do mundo."

Muitos preciosos minutos depois, ainda na delegacia, ouço falar que o sistema financeiro quebrou. Todo o dinheiro do mundo não vale mais nada. Minha carteira estava cheia de cédulas de Banco Imobiliário. Ora, fiquem com ele e me deixem ir embora, então.

Começou a chover. Começaram os pontos de alagamento. "Vamos ter que voltar pra nau, e rápido", me disseram. "Não, eu preciso buscar o Max", insisti. "Você prefere viver sem o seu cachorro ou morrer com ele?"

Chovia torrencialmente. A embarcação de madeira balançava violentamente no agora mar tempestuoso. "Eu matei meu cachorro", chorava, enquanto o despertadorzinho sem vergonha do celular anunciava que eram 09h40. "EU MATEI MEU CACHORRO POR CAUSA DE UMA GAIOLA." 09h45 e a minha mania de colocar despertadores a cada cinco minutos. Meu rosto estava mais molhado de lágrimas do que de gotas da tempestade. 09h50 e eu tentava bater nas horas na tela do celular em vez de apertar o botão para desligar o alarme. "Pedi pra chover mas chover de mansinho". O CD do Luiz Gonzaga do meu pai tem a Súplica Cearense, queria que tivesse essa música no meu também. 09h55. "Toda menina que enjoa da boneca é sinal que o amor já chegou no coração". Acho que é uma gravação diferente do Xote das Meninas que tem no meu CD. 10h00. Vou desligar esses alarmes infernais, quero saber como termina o dilúvio. 10h30. O Max poderia parar de latir debaixo da minha janela. 10h40. Preciso levantar e ir encomendar um pacote novo de ração pra ele no veterinário.

Ah, e em salvar o seu irmão que é bom você não pensou não, né?

Nenhum comentário: