terça-feira, 12 de março de 2013

05h40. Não quero levantar. Odeio meu trabalho. 05h45. Preciso tomar uma atitude e sair deste emprego horrível. 05h50. Vivo de enganar outras pessoas. 05h55. O que eu fiz da minha vida? 06h00. Que milagre, apertei o botão dismiss de primeira no despertador do celular. Ah, droga, não queria ir para a escola hoje. 06h05. Pelo menos hoje não vou me atrasar.
10 de março

Mas como o Max estava chato hoje de manhã. Leco e eu o demos para a vizinha, já que ela gosta tanto dele. Mas, pensando bem, quando a nossa tia chegar em casa à noite, vai notar a ausência do cão e vai falar um monte pra gente. Vamos lá buscá-lo de volta. 

Como assim, R$ 1.555,00? O cachorro é nosso, você só ficou uma tarde com ele e agora quer vendê-lo? Ele é velho e sequer tem pedrigree. E agora, como a gente vai trazê-lo de volta?, nós não temos esse dinheiro! Ah, vamos ter que aguentar tanta encheção de saco…


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Estou me sentindo tão leve. Meu Deus, será que eu morri mesmo? Desci até a garagem com alguém, onde meu corpo estava. Sou eu mesma ali? Só vejo os pés. Não quero ver o meu rosto. O aspecto dos rostos dos defuntos que já vi é a coisa mais triste e assustadora do mundo, para mim: traços tão conhecidos, tão queridos, tão importantes, sem vida, prestes a se decomporem e desaparecerem. Não, não quero ver o rosto do meu cadáver. 

Vi de relance. Deus, o que eu faço? Quando meu corpo se decompuser, será que o que resta da minha consciência vai desaparecer também? Provavelmente sim. Senti um vazio existencial que só a iminência da morte definitiva traz. 

Ué, mas já são 13h? Uma das luzes do aquário está fraca, vou ter que comprar outra lâmpada. Ah, droga, minha coridora morreu.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A rua do Oratório fica sempre muito agitada à noite. Os alunos saem da UFABC e vãos pros bares ao redor. Mas hoje é diferente. Todos estão com uma agitação pressurosa: precisamos ir para nossas casas, pegar nossos pertences mais importantes e voltar para a nau.

"O que vocês estão fazendo parados aí?", perguntei a alguns amigos que estavam dentro de um carro estacionado. "Não vai dar tempo, a gente mora longe." Quase gritando, respondi: "venham comigo e a gente pega mantimentos na minha casa!"

Nunca corri tanto na avenida dos Estados. Passando por semáforos vermelhos, andando a mais de 90 km/h. Passava por outras ruas quando encontrava um congestionamento. 

Chegando a minha casa, corri para o quarto, coloquei o máximo de roupas que pude em malas, mochilas e sacolas. Falei para meus amigos sem rosto pegarem o máximo de alimentos que pudessem na cozinha enquanto eu pegava os animais. Foi a primeira vez em meses que o Juca entrou na gaiola, e não gostou nem um pouco. Os hamsters vão junto com ele. Vou ter que arrumar uma gaiola para transporte de cachorros, o Max pode se perder ou se machucar se for solto. Olhei para os aquários: sinto muito, vocês vão se perder no dilúvio. Não posso manter animais aquáticos na nau porque toda a água potável vai precisar ser economizada para ser bebida. Colocamos tudo no porta-malas do carro. Eu precisava correr muito, levar todos de volta ao local de embarque, comprar uma gaiola para o Max e buscá-lo em casa. 

"Nós vamos com você, vamos te ajudar", disseram meus amigos desconhecidos. Na procura por um lugar onde pudéssemos conseguir a tal gaiola, passei por um semáforo vermelho e bati sem querer o retrovisor do carro numa pessoa. "Ela vai entender", pensei, me desculpando mentalmente, enquanto um carro de polícia me dava sinal para parar. "É inacreditável: o mundo acabando e a polícia querendo me encher o saco", pensei enquanto íamos para a delegacia. Pronto, agora querem que paguemos uma quantia abusiva de dinheiro para eu não ser presa por ter batido um retrovisor nas costelas de um pedestre. "É, literalmente, o fim do mundo."

Muitos preciosos minutos depois, ainda na delegacia, ouço falar que o sistema financeiro quebrou. Todo o dinheiro do mundo não vale mais nada. Minha carteira estava cheia de cédulas de Banco Imobiliário. Ora, fiquem com ele e me deixem ir embora, então.

Começou a chover. Começaram os pontos de alagamento. "Vamos ter que voltar pra nau, e rápido", me disseram. "Não, eu preciso buscar o Max", insisti. "Você prefere viver sem o seu cachorro ou morrer com ele?"

Chovia torrencialmente. A embarcação de madeira balançava violentamente no agora mar tempestuoso. "Eu matei meu cachorro", chorava, enquanto o despertadorzinho sem vergonha do celular anunciava que eram 09h40. "EU MATEI MEU CACHORRO POR CAUSA DE UMA GAIOLA." 09h45 e a minha mania de colocar despertadores a cada cinco minutos. Meu rosto estava mais molhado de lágrimas do que de gotas da tempestade. 09h50 e eu tentava bater nas horas na tela do celular em vez de apertar o botão para desligar o alarme. "Pedi pra chover mas chover de mansinho". O CD do Luiz Gonzaga do meu pai tem a Súplica Cearense, queria que tivesse essa música no meu também. 09h55. "Toda menina que enjoa da boneca é sinal que o amor já chegou no coração". Acho que é uma gravação diferente do Xote das Meninas que tem no meu CD. 10h00. Vou desligar esses alarmes infernais, quero saber como termina o dilúvio. 10h30. O Max poderia parar de latir debaixo da minha janela. 10h40. Preciso levantar e ir encomendar um pacote novo de ração pra ele no veterinário.

Ah, e em salvar o seu irmão que é bom você não pensou não, né?

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Hora do almoço. Como fica cheia a sala do DCE em começo de quadrimestre! 

Para variar, meus amigos estão jogando sinuca. É impressão minha ou o Luiz está ali também? "Cara, o que você tá fazendo aqui? Você não tinha morrido?"

"Ah, Maiza, você acredita em cada coisa, viu."

sábado, 17 de novembro de 2012

Quarta-feira, dez horas. Eu estava atrasada. Entrei no meu quarto voltando do banheiro e vi uma ninfa de barata em cima da mesa do computador. Fui buscar a lata de inseticida e, quando voltei, vi duas ninfas. Matei ambas. Comecei a arrumar minha mochila em cima da cama e, quando olhei de novo para a mesa, vi uma barata adulta passando por ali. Matei-a com inseticida também. 

"Essas baratas estão cada dia mais abusadas, viu", pensei, enquanto outra barata subia pela minha perna. "Cacete!" Joguei inseticida no quarto inteiro. Em alguns minutos, o cômodo estava coalhado de baratas mortas. Ninfas, adultas, fêmeas com ooteca. Baratas americanas, australianas, alemãs, orientais.

"Pronto, agora posso continuar arrumando minha mochila. Se bem que já são quase 11h, vou perder a maior parte da aula e não tenho nada pra fazer na UFABC depois. Não vou gastar gasolina por isso. Vou ficar em casa e continuar montando a playlist pro meu pen drive." 

Varri as baratas mortas de cima da cadeira para o chão, sentei e liguei o computador.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Acordo
E a primeira coisa que vejo
É o meu sorriso bobo
Refletido em seus olhos

terça-feira, 16 de outubro de 2012

20 de julho

Eu andava com meu Ka a uns 60 km/h por uma rua. Vi o semáforo ficar amarelo. Acelerei. O semáforo ficou vermelho. Vai que dá, pensei.

Bati num Monza verde. Amassei a lateral direita inteira dele e o para-choque dianteiro do meu. Fiquei em choque. Vi o motorista sair do carro. "Puta merda, bati no carro do Marcos", pensei. Ele saiu, deu a volta no seu carro, olhou para o meu, viu que era eu. Andou em linha reta até mim, abriu a porta do Ka, falou "vem aqui ver o que você fez."

Saí. Em choque, não consegui falar nada. "OLHA AQUI O QUE VOCÊ FEZ, SUA VAGABUNDA", ele gritou na minha cara. Eu não conseguia falar nada. "VOU TE DAR UNFOLLOW NO TWITTER, OLHA AQUI", dizia ele, tirando o celular do bolso, acessando meu perfil e me mostrando que apertava o botão Unfollow. As pessoas em volta paravam para olhar o escândalo.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

De longe, me tira o sono.
A meia distância, me tira a roupa.
De perto, me tira o medo.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Fim de tarde. Que inferno de cidade! Não se encontra uma vaga na zona azul por aqui.

Tivemos que deixar o carro bem longe e ir andando até o lugar onde os cegos se encontram. Que bom que pelo menos já passou das 18h e não é mais preciso pagar para estacionar.

Lá, todas as flores custavam caríssimo. Que pena, eu gostaria de levar a azaleia branca. Por que custa tão caro? Pelo visto, é por causa do vaso. Não posso levá-la sem o vaso, então?

O despertador tocou do outro lado. Espere um pouco, estou fazendo uma compra importante aqui. 15h40. Calma, já vou. 15h50. Mas que droga, a azaleia é tão bonita. 16h00. A rua é tão íngreme, acho que não vai dar tempo. 16h10, hora de levantar e regar a azaleia cor de rosa na janela.